Amplificador SAE 2200

(Por Marcelo Yared)

sae_logo

Os equipamentos da SAE têm muita fama de robustez e excelente qualidade técnica, e tinham também um design diferenciado para a época. A história do fabricante desse amplificador pode ser vista aqui: http://www.wardsweb.org/audio/sae_history.html.

Após algumas semanas de pedreira, consegui finalizar o SAE 2200.  Adquiri este equipamento no ML. Uma barganha, pois ele estava em péssimo estado e, se fosse um amplificador comum, iria para o lixo… Mas é um SAE, portanto, é algo como o que vi certo dia na Internet, onde o exército ucraniano recuperou um tanque Tiger alemão do fundo de um lago, onde foi jogado pelo exército alemão em retirada em 1943/44… Foi feita uma limpeza, a foi lama retirada de seu interior, colocado combustível no tanque e… o motor deu partida, após mais que sessenta anos no fundo do lago.

Assim, a estética estava bem ruim, muito arranhado e maltratado pelo “dijei” para o qual prestou serviço e que fez o favor de riscar seu nome no tampo superior de alumínio. Uma boa demão de tinta preta Alumen resolveu os riscados de forma bem satisfatória.

Não refiz a serigrafia dos painéis, pois, apesar deles estarem meio encardidos, o Jimmy Bolha fez uma defesa tão enfática da qualidade dessa serigrafia, justificada aliás, que preferi manter tudo original. Vejam como estava o cidadão:

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Havia ainda o problema da chave “on/off” que o “dijei” colocou no painel frontal, abrindo um furo tosco e, por sorte, pequeno no painel. Inicialmente pensei em fechar com um parafuso similar aos das alças do painel, mas depois, após consultas ao conselho de anciãos da lista Somtrês (he, he, he), resolvi montar um circuito para acionamento por relé e colocar um pequeno botão e pressão para ligar e desligar o aparelho. Coloquei também um LED para indicar que o aparelho está ligado na tomada porém em “stand-by”, o que é útil pois não tinha com acrescentar serigrafia para indicar a função do “push-button”. Acho que ficou bom.

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Preliminarmente, desmontei todo o aparelho, e neste aspecto, tirando a quantidade de parafusos, o equipamento é de manutenção muito fácil, à exceção de um detalhe: se for necessário substituir-se um LED dos VUs, por exemplo, a coisa fica meio complicada; são duas placas formando um sanduíche, e, pelo que pude perceber, teriam que ser dessoldados todos conectores para separar uma placa da outra…

Mas o restante é bastante tranquilo, os materiais de excelente qualidade, com placas impressas de fibra de vidro bastante robustas.

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Infelizmente, apesar da robustez, a placa dos transistores de saída literalmente pegou fogo por conta de alguma “mãozada” de algum técnico de manutenção, que destruiu as trilhas e também um dos contatos do relé de saída, na placa da fonte.

Passei à manutenção da placas. Anos de abuso e manutenção incorreta no 2200 cobraram seu preço, e revi praticamente tudo. Sofreu o coitado… nem os pés sobreviveram. E vejam que ele parece um pequeno tanque de guerra.

Após um completo recap, por descargo de consciência, recuperei, com base em um esquema disponível na Internet, as ligações na placa de saída, utilizando trimpots multivoltas selados e substituindo os MJ15003/4 que estavam na saída pelos modelos mais indicados para o 2200 (MJ15022/23). Os MJ colocados estavam bons e não eram falsos. Por isso aguentaram o “tranco”. Foram para o estoque. Estava assim:

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E ficou assim, junto com as demais placas:

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Posteriormente fiz mais três modificações:

  • Substitui o relé original, apesar de ter reparado o contato danificado, por dois relés miniatura selados;

rele1

  • Troquei os diodos 1N5403 originais por uma ponte retificadora de 8A/400V com um pequeno dissipador;
  • Tinha utilizado transistores BD139/140 no VAS por unidades equivalentes às originais, da Toshiba, com VCE mais adequado – (funcionou com os BD, mas depois verifiquei que seu VCEo não era adequado para esse amplificador).

Com isso, e mais os transistores ON Semi de 250W a 25 graus Celsius na saída, preparei o amplificador para funcionar com cargas de 4 ohms, coisa que seria muito complicado com os originais do projeto (2SD424/2SB554).

Com as placas reparadas o amplificador foi ajustado com uma fonte estabilizada para a corrente de repouso ótima. Neste ponto, lembro-me de uma discussão acerca de como a potência de saída é dependente da qualidade da fonte. Neste caso, a fonte do 2200 é muito boa, o transformador muito bem dimensionado e de qualidade. A fiação tem bitola adequada e os contatos são de baixa resistência. Tudo isso somado a um projeto criterioso fatalmente resulta em um bom equipamento e justifica a fama do fabricante.

E aí começou o exercício de paciência budística “à lá” Tonhão… O amplificador é muito bom etc, mas tem duas limitações para “nosotros” que não estamos no Rio ou em SP e nem temos acesso ao pré da SAE que compõe o conjunto: ele, na versão que adquiri, funciona somente em 120VCA e a sensibilidade de entrada é um pouco baixa (1,5v rms para 0dB na saída – referência 100W/8 ohms).

A segunda resolve-se com um bom pré, mas a primeira… teria que se levar o trafo a uma empresa e mandar reenrolar ou, fazer como o besta aqui, reenrolar na mão. Resultado, após uma trabalheira do cão (estou devendo para o Gallo um texto sobre como fazer um trafo desses, em breve escrevo algo e divulgo):

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TRAFOSAE

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Ao fim, o transformador ficou com uma regulação com carga máxima (4,5A, estimada) de 6% de perda, o que é muito bom. alguns pontos interessantes:

  • O material do trafo é de muito boa qualidade;
  • O enrolamento original é superior ao que fiz, na mão; o empilhamento perdeu uns 2mm de chapas devido à minha dificuldade de remontá-lo, mas o resultado, conforme os testes mostrarão, ficou muito bom;
  • A perda das chapas, somada ao ajuste meio “no chute” da pressão nas arruelas de borracha que fixam o trafo no chassis fizeram a unidade zumbir um pouco mais;
  • Não peguei, até hoje, nos amplificadores nacionais, transformador, com núcleo EI, com essas qualidades gerais;
  • Não me lembrava mais de como é chato enrolar transformadores na mão, he, he, he…

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Assim, após essa trabalheira toda, procedi à pintura dos painéis laterais e superior do 2200, de forma a torná-lo mais apresentável. A anodização sofreu um bocado na mão do “dijei”…

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A próxima etapa foi adaptar um pequeno painel de alumínio no transformador de força de modo a acomodar, internamente, a chave comutadora 110/220VCA:

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Então mais algumas noites montando toda a “tralha” junto e ficou assim:

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Após a colocação de “trocentos” parafusos, que dão trabalho para aparafusar mas proporcionam uma boa estabilidade mecânica para a montagem:

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Aliás, para se ter uma ideia do cuidado da SAE com seus projetos e montagens, essa foto mostra o amplificador alimentado por uma onda senoidal de 1kHz com cargas de 8 ohms. O VU aponta precisamente a potência eficaz entregue à carga: 100W. Não fiz nenhum ajuste nesses VU. está como veio de fábrica há uns 35 anos, ou mais… A frente está meio castigada, mas depois pego as dicas com alguém da lista sobre como limpá-la melhor.

Medições na Bancada

Não tenho nenhum manual desse amplificador, assim, tomei por base o folheto publicitário da SAE para comparar as medições, obtendo os valores abaixo:

tabelasae2200

Todos os valores são excelentes a menos da diafonia, mas esta também não compromete. Observem:

  • A qualidade da fonte, que permitiu valores expressivos de potência, acima até do valor nominal, bem como a excelência do projeto e construção geral, com medidas de qualidade, mesmo se considerarmos equipamentos atuais.
  • O amplificador, com fonte estabilizada, entregou aproximadamente 150 watts eficazes em 8 ohms com fonte estabilizada e caiu para 125 watts com a fonte original, o que é muito bom se considerarmos que ela é não estabilizada e atende aos dois canais.

Apesar de algumas correntes advogarem o uso de fonte estabilizada para estágios de saída, não há grande vantagem nisso, no caso de fontes lineares. A boa fonte comum é a melhor opção. Observem também que não adiantam “zilhões” de microfarads de capacitor se o transformador não for de qualidade e corretamente dimensionado, como é o caso desse SAE. Como vi rapidamente que o transformador era adequado, mantive o valor da capacitância da fonte, apenas utilizei unidades para 105 graus Celsius, ao invés das de 85 originais, pois sabia que o bicho ia esquentar.

Essa pequena usina de força entrega quase 350 watts eficazes em 4 ohms com alta qualidade sonora, montada em um gabinete de 43cm x 21cm x12cm, sem contar as abas padrão rack!

Por outro lado, todo o gabinete de alumínio e o painel fontal estão termicamente acoplados ao dissipador principal, aumentando significativamente sua capacidade de dissipação, o que é muito bom. Assim, todo o conjunto, notadamente em potências elevadas, fica bem quente. Em uso residencial isso não é problema, mas nos testes de estresse que executo, o amplificador alcançou temperaturas externas próximas de 60 graus Celsius, o que demanda atenção. A eficiência, nesses testes (máxima potência), foi de aproximadamente 43% em 4 ohms e de 50% em 8 ohms. Apesar de boa, o bicho esquenta…

No momento estou ouvindo o Works do Emerson, Lake and Palmer, no Tidal, e o SAE empurra sem nenhuma dificuldade as caixas da Braun, com um som muito limpo e agradável. Vai substituir o PA400 na minha musiquinha de bancada, he, he, he…

Um excelente amplificador. A SAE, emho, fez jus a todo o bom nome que tinha.

Forte abraço!

speaker

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