Amplificador CCE SA6060

(Por Marcelo Yared)

Pessoal,

Quem não se lembra, nos “bons tempos”, dos dois acrônimos, em tom de brincadeira (ou mesmo não), atribuídos à marca CCE: “Conserta, conserta, estraga” e comecei “comprando errado”? Pois é, na minha proposta de adquirir e medir os principais amplificadores de potência comerciais nacionais, residenciais, das “décadas de ouro” da indústria de áudio nacional, creio que consegui praticamente todos que julgava interessante, até, outro dia destes, me lembrar de que não havia testado nada da CCE.

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Fazia até algum sentido, considerando-se que a CCE não fabricou tais equipamentos, ao menos para comercialização. De qualquer forma, penso que não poderia deixar de avaliar algo daquela empresa e aí resolvi adquirir um amplificador integrado, o SA6060, na época um dos integrantes do famoso Studio 6060 da empresa, lançado para competir comercialmente com os sistemas da Gradiente e da Polyvox, principalmente. Não se tratava de uma competição em potência, mas em qualidade, pois esse integrado é menos potente que os dos systems topo de linha de seus competidores citados, apesar de não ser considerado de baixa potência. O conjunto do Studio 6060 tinha muito boa fama, não era barato, e neste texto veremos se o amplificador (que não é muito fácil de achar hoje em dia) valia o que se pedia por ele.

O exemplar que tenho em mãos foi comprado no Mercado Livre, um pouco caro, mas está com a estética muito boa, painel frontal bem conservado, apenas com arranhados na tampa superior e com os terminais de falantes (muito ruins de se conectar fios, por sinal, aqueles de garfinhos de antena) quebrados e colados com cola “Bonder” por algum “especialista” moderno…


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Interessante notar neste exemplar duas coisas: Não tem a serigrafia “Studio 6060” no painel frontal, o que indica ter sido vendido avulso e, mais estranho, não tem chave para seleção da tensão da rede. Pode ter sido feito especificamente para algum público regional. Posteriormente, após medições, eu descobri que a tensão do primário dele é de 127Vac (não havia nenhuma indicação na serigrafia sobre isso). Todas as medidas foram realizadas nessa tensão.

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Apesar de o vendedor garantir, em seu anúncio, que o aparelho “funcionava perfeitamente”, resolvi abri-lo e me certificar de que estava tudo ok antes de ligá-lo. Só para não variar, havia sinais de manutenção inadequada na placa das fontes, componentes desconectados na placa do amplificador de potência e componentes “torrados” nela. Como fiz um completo “recap” do SA6060, isso não foi muito relevante. Só lamento que alguns compatriotas não entendam que honestidade não deve ser a exceção em uma sociedade civilizada, mas sim a regra. Alguns Reais a mais não compensam uma reputação ruim, emho.

Quanto à manutenção, todos os esquemas que achei na Internet estavam com baixa definição e não eram da mesma versão da placa de amplificação do meu exemplar. Foi possível trabalhar com eles, entretanto.

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A montagem interna é muito boa, racional, com espaços adequados e componentes de ótima qualidade, nacionais e importados. Não é uma mera “maquiagem” de um produto importado, mas, claramente, um projeto bom e baseado em tecnologia japonesa, ao menos em seus componentes principais e em sua construção. Para destoar do conjunto, as placas de circuito impresso, de fenolite, nacionais, são de qualidade inferior em relação ao restante do conteúdo do aparelho.

Inciando com a fonte de alimentação, descobri que o termo “DUAL POWER SUPPLY” no painel frontal do aparelho se refere a duas seções de retificação e filtragem separadas, a partir de dois secundários do transformador de alimentação (adequado para o projeto e muito bem construído, por sinal, com baixas perdas nos testes de carga). Recurso inteligente e muito interessante, mas, se a utilização de fontes separadas visa diminuir a interação entre os dois canais, melhorando a separação entre eles (crosstalk), observei que os estágios diferenciais de entrada do amplificador de potência são alimentados por um circuito da fonte do canal esquerdo, ou seja, devemos esperar, como de fato ocorre, que o crosstalk seja afetado, apesar do valor medido não ser ruim.

Vejam abaixo as gambiarras encontradas e as reparações efetuadas. Dos quatro capacitores de filtro principais, um ainda apresentava boas características e os demais estavam vazando. Todos os diodos das fontes foram trocados por unidades de 2A. Os capacitores originais Siemens de 5000uF/50V foram substituídos por Epcos de 6800uF/50V.

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Deixando a placa de amplificação para o fim, providenciamos o “recap” das demais placas.

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A placa de amplificação estava com algumas gambiarras e com componentes queimados. Sua reparação não foi difícil, e, para nossa alegria, os transistores de saída ainda eram os originais Toshiba, de excelente qualidade. Foram mantidos, apenas os parafusos de fixação foram re-atarrachados e trocada a pasta térmica original, um pouco ressecada.

O “especialista”, acho que por ter perdido uma das buchas isolantes, simplesmente atarrachou o transistor ao dissipador sem ela… Se o furo de passagem for largo o suficiente e se ele centralizar bem, funciona, mas confesso que é uma das gambiarras mais porcas que já vi na minha vida. Lamentável. Foi reposta.

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Também o componente que é fixado à placa, um diodo triplo, responsável pela estabilização térmica de um dos canais estava com os dois terminais quebrados e o cidadão fez mais uma gambiarra porca, que obviamente não durou e soltou. Como a peça não é comum, pacientemente “escavei” o corpo da mesma até conseguir espaço suficiente para soldagem e refiz os contatos. Os fios, flexíveis, foram reforçados no ponto de fixação com Araldite Profissional e devem ficar no lugar por muito tempo, doravante.

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Interessante também, e digo de nota, é que o precavido reparador resolveu, por segurança, já se vê, isolar a gambiarra que ele fez (talvez já sabendo que não duraria muito) com um papelão de caixa de ovos, entre a caixa metálica e o ponto do dissipador em que o sensor é colocado. Vejam:

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Foram trocados dois resistores “torrados” na placa, feito seu “recap” e, durante a manutenção, observei que o nível DC na saída estava um pouco alto (para o meu gosto), algo em torno de 140mV, em ambos os canais. Resolvi verificar o ganho dos transistores diferenciais de entrada, BC557A, originais, e estavam baixos e descasados em ganho estático. Troquei pelo mesmo modelo, apenas casando e selecionando unidades com ganho em torno de três vezes maior, nos dois canais. Como resultado, o nível DC baixou para algo em torno de 20mV, o que dei por satisfatório. Hoje em dia os componentes, mesmo de numeração idêntica aos mais antigos, de boa marca, são bem melhores e com menor dispersão em suas características.

Feito isso, ajustei as correntes de repouso para o valor teoricamente ótimo para essa topologia de saída e parti para a remontagem.

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Observem a quantidade de capacitores trocados. Os de poliéster “zebrinhas” estavam quase todos com seus terminais trincados no corpo dos componentes. Foram trocados preventivamente, bem como alguns resistores de montagem vertical que estavam na horizontal (originais de fábrica, e apenas para melhorar a estética).

Todas as chaves foram lubrificadas preventivamente com Deoxit (presente de nosso grande amigo Monteiro). Os potenciômetros estavam todos perfeitos, excelentes Alps, e não mexi neles. Mantive as lâmpadas dos VU, originais e em bom estado. O fusível de 4A original foi trocado por alguém por um “mais forte”, de 15A, garantindo assim que o amplificador torrasse antes de ele atuar… foi devidamente substituído.

Retirei os conectores de falantes originais, que estavam muito ruins e colados com Super Bonder, por outros do tipo banana/rosca, bem melhores emho. Preparei uma pequena placa de fibra, pintei e coloquei no lugar. Não acho mais conjuntos prontos assim. Se alguém souber onde (e se) ainda se vende essa peça, serei grato em saber.

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Remontado o aparelho e refeita a tampa superior, cuja pintura estava deteriorada, parti então para as medidas e testes. Foram trocados vários parafusos que não eram originais por outros mais adequados e combinando com o belo conjunto do amplificador.

Ele, em minha opinião, é um dos mais bonitos integrados nacionais da época. Sem excesso de grafismos e de luzes. Alumínio escovado e aço em preto. Futuramente reduzirei um pouco da luminosidade das lâmpadas dos VU, colocando um anteparo entre elas e os medidores. Esteticamente é a única ressalva que eu faço ao conjunto.

Medições Efetuadas

As medições foram feitas em 127Vca, 60Hz, temperatura ambiente de 25 graus Celsius, após pré aquecimento a 1/3 de sua potência máxima nominal em 8Ω por uma hora.

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                                                                                       Potência em 4Ω
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                                                                                       Potência em 8Ω

Há um pequeno desequilíbrio entre os canais, mas nada significativo. Importante lembrar que as medidas foram tomadas no conjunto amplificador de potência e pré, assim, há maiores chances de pequenos desequilíbrios ocorrerem por variação de componentes ou ajustes.

Abaixo temos um quadro comparativo das medidas efetuadas e as constantes do sítio Audiorama (www.audiorama.com.br) que, creio, seriam as especificadas pela CCE.

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Digno de nota é que todas medições excederam as especificações da CCE a 1kHz, com folga. Trata-se de um amplificador bem projetado e honesto em suas especificações. O crosstalk não foi declarado. A medição não foi ruim, apesar da limitação já citada acima.

THDA 1W 8R 1kHz
                                                                               DHT (ponderação A) a 1W/8Ω/1kHz
THDA 10W 8R 1kHz
                                                                             DHT (ponderação A) a 10W/8Ω/1kHz
THDA 60W 8R 1kHz
                                                                               DHT (ponderação A) a 60W/8Ω/1kHz
THDA 98W 4R 1kHz
                                                                                  DHT (ponderação A) a 96W/4Ω/1kHz
IMD SMPTE 1W POT 8R
                                                                                        DI SMPTE a 1W/8Ω
IMD SMPTE 10W POT 8R
                                                                                      DI SMPTE a 10W/8Ω
IMD SMPTE MAX POT 8R
                                                                                       DI SMPTE à máxima potência em 8Ω
IMD SMPTE 10W POT 4R
                                                                                       DI SMPTE 10W/4Ω
FR 1W 8R
                                                                    Resposta em frequência a 1W/8Ω, ruído branco
cr
                                                                                       Crosstalk a 1W/8Ω

Observações:

– A resposta em frequência à potência máxima foi bastante similar à obtida em 1 Watt e ambas têm um pico de aproximadamente 3dB acima de 50kHz;
– A relação sinal-ruído foi medida a -6dB em meu equipamento, o melhor ponto de medição, daí é possível inferir-se que é superior a 70dB, em qualquer condição, como especificado pela CCE;
– Usualmente o fator de amortecimento é medido a 10 Watts, mas a CCE não especificou a potência. Medi a 1 Watt, mas o FA é muito bom, de qualquer forma. O valor de 40 (o especificado) seria muito bom também;
– Confirmei todas as especificações do Audiorama que não reproduzi aqui, tais como loudness, filtros, atuação dos controles de graves e agudos etc.

Conclusões

Após horas escutando música por intermédio do SA6060, e a par de suas características técnicas, posso afirmar com segurança que quem o adquiriu não começou comprando errado e que ele não estragava constantemente, também. Muito agradável a audição a baixos e médios volumes, sem distorções audíveis e resposta plana e satisfatória em todos os sentidos.

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É um excelente aparelho, feito com cuidado e muito honesto em suas ótimas, para a época, especificações. Além de tudo, é muito bonito. Não sei quanto custava à época. Dizem que era caro. Não duvido.

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12 Comments on Amplificador CCE SA6060

  1. Olá amigo!! me alegra que tengas un cce6060 tengo unos cuantos meses areglando uno, como você perdeu muitos diagramas diferentes, mas acho que, o que você está procurando, me dedique a você? espero suas respostas e intercambiar algumas fotos.

  2. Boa tarde Marcelo, é ótimo saber que ainda existem técnicos com extrema responsabilidade e honestidade como provou neste artigo. Você o salvou dos maus tratados dados pelo “técnico” anterior. Já vi isto inúmeras vezes. O leigo não abre o aparelho para se certificar do estado geral e, nem o pode com a pressão da perda de garantia… Trabalhei na assistência técnica da fábrica CCE aqui em BH/MG por um período, nos áureos tempos dela. Este integrado é uma cópia enxuta (nacionalizada) do Kenwood KA-6060 (JAPÃO). Possuo um, que o comprei lá mesmo, a preço de custo, por ser funcionário (40 anos atrás). É um excelente amplificador. Parabéns pelo serviço e pela matéria. Sucesso!

    • Obrigado, Alexandre! Agradecemos também as informações sobre as origens do amplificador.
      Não achei na Internet o KA-6060. Mas o KA-5700 é bem parecido com ele.
      De qualquer forma, foi uma adaptação muito boa, o amplificador é bom. Apenas poderiam ter caprichado mais nas placas de fenolite, que não condizem com a qualidade geral do aparelho.

      Forte abraço,

      Marcelo yared

  3. Só lembrando que o meu também não possui a insígnia Studio 6060, nem mesmo o emblema CCE no frontal, apenas na traseira.

  4. Parabéns, Marcelo. E tive o privilégio de ouvi-lo empurrando duas honestíssimas B&W DM603. Testei LPs com meu velho DD100Q, CDs e até MP3 via Bluetooth (usando um receptor ultra simples da Logitech). Show! Apesar da idade, excelente. Acho que você já pode batizá-lo de Bruna Lombardi!

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